De Pequim, de Washington, da Cidade do México, de Caracas, de Buenos Aires, de Brasilia, de São Paulo, de Curitiba, deslocaram-se os especialistas convidados para o workshop Oportunidades de investimento em boas práticas de mobilidade sustentável no Brasil promovido pelo CTS-Brasil dias 18 e 19 de junho, em Porto Alegre.
Após dois dias de trabalhos, a conclusão foi unânime: falta decisão dos governos para criar uma política pública a favor da sustentabilidade nos transportes, o que dificulta a implantação de melhorias na mobilidade. A solução seria a pressão da sociedade e a mobilização só acontecerá quando as pessoas compreenderem os problemas de saúde e mobilidade ligados ao crescimento desordenado de automóveis e motocicletas num espaço urbano limitado.
O grupo também considera o interesse das elites como um obstáculo para a ação política em torno do transporte sustentável. Eduardo Vasconcellos, assessor técnico da ANTP, atribui o incentivo ao uso dos veiculos particulares em São Paulo à essa elite, que não vê o transporte público como prioridade.
Conforme a ANTP, o transporte público no Brasil já perdeu 30% da demanda e a estimativa é de que essa redução atinja 50%, até 2025. O governo retirou IPI dos automóveis e da motocicleta, mas não dos ônibus, nem das bicicletas e este exemplo foi usado pelos participantes do seminário para reforçar a falta de incentivo ao transporte coletivo.
Mesmo Curitiba, a cidade modelo mundial em transporte sustentável está muito motorizada. Garrone Reck, diretor da Logitrans, comentou que o uso do transporte público, que já chegou a 75%, hoje está abaixo de 50%. E completou: "A velocidade de operação do sistema ônibus está baixando, em alguns horários cruzar o centro de Curitiba é a mesma sensação de estar na Marginal, em SP".
A Copa de 2014 foi entendida como uma boa oportunidade para aplicar práticas de mobilidade sustentável. No entanto, o avanço do transporte urbano não deveria depender de acontecimentos excepcionais e, sim, ser uma prática comum dos governos.
O que falta para as cidades brasileiras investirem em transporte sustentável?
Renato Grillo Ely, diretor da Ely Prado Engenharia, de Brasilia:
"Esqueça qualquer estudo, se não houver decisão política, não sai. A implantação de transporte sustentável demanda mais do que um mandato, por isso é preciso dar continuidade nas ações, com parceria das três esferas de governo - federal, Estado e município - e não deixar tudo concentrado nas mãos dos prefeitos."
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Francisco Wulff, diretor de Análises e Programação Setorial, da Vice-presidência de Infraestrutura da Corporação Andina de Fomento (CAF), de Caracas:
"Faltam duas coisas: Primeiro, uma boa conceituação de projetos, tomando em conta as diferentes dimensões da sustentabilidade (custo-efetividade, sustentabilidade social e ambiental, e sustentabilidade financeira). E, em segundo, uma maior transparência nos processos de decisão política, pois os projetos de transporte urbano são complexos, envolvem muitos atores, com interesses diferentes, que nem sempre se expressam claramente ou publicam suas posições. É muito importante, portanto, a organização e a mobilidade dos representantes da sociedade civil a fim de explicar à sociedade o que está acontecendo. O CTS-Brasil é uma organização bem posicionada, capaz de fazer boas contribuições nesses desafios."
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Paulo Sergio Custodio, consultor do programa cidade sustentável da China, de Pequim:
"Falta honestidade. O Brasil virou um grande balcão de negócios, não se convence ninguém de se fazer nada, só se compra as ações. A palavra ‘ética’ foi abolida há muito tempo do dicionário brasileiro. No Brasil só se faz o que rende mais para certas pessoas, não o que é certo."
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Luis Gutiérrez, diretor da EMBARQ para América Latina, de Washington:
"Falta claridade na visão e mecanismos para canalizar os recursos para a implantação de soluções. Classe pública brasileira não define o transporte público como prioridade, permitindo que suas cidades mostrem níveis notáveis de insustentabilidade e falta de saúde. É preciso que o Brasil retome, com seriedade, as formulações do Ministério das Cidades e estabeleça mecanismos institucionais e financeiros para possibilitar o desenvolvimento do transporte sustentável."
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Garrone Reck, diretor da Logitrans, de Curitiba:
"Ainda faltam várias coisas, como fonte de recursos, prioridade e decisão política. Hoje em dia existe uma cultura egoísta e materialista, mas acredito que, quanto mais caótica a situação ficar, vai-se chegar a um ponto em que a mudança cultural será a única saída. É preciso investir na educação e na cultura das novas gerações, que têm mais disposição para mudar, ainda é possível formar neles um pensamento mais crítico quanto à sustentabilidade."
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Eduardo Alcântara Vasconcellos, Assessor Técnico da ANTP, de São Paulo:
"Falta conscientização da sociedade sobre os problemas associados ao uso do automóvel e da motocicleta. Não existem políticas públicas para criar um sistema sustentável, e, se as pessoas não exigirem, os políticos nunca as farão."
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Wagner Martins, presidente da Logit Consultoria, de São Paulo:
"Vontade política. Falta consciência dos políticos e pressão dos defensores do transporte sustentável. Não se justifica, por exemplo, a falta de ciclovias. É só fazer campanha de marketing com as empresas que elas financiam, pois é barato."
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Adriana Lobo, diretora do CTS-México, da Cidade do México:
"Falta decisão, para uma mudança substancial. É preciso uma visão clara e muito trabalho, para fazer uma ruptura dos paradigmas."
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Jorge Kogan, analista da Corporação Andina de Fomento (CAF), de Buenos Aires:
"Falta uma política nacional de transporte urbano, além de informação, para que a sociedade possa entender o problema."
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German Freiberg, diretor de Planejamento de Sistemas do CTS-México, da Cidade do México:
"Falta criar uma nova institucionalidade, uma instância sólida em nível nacional que permita duas coisas: formulação de políticas de transporte urbano, especialmente o público, e instrumentos de investimento na melhoria da mobilidade nas cidades, através da captação de recursos federais."
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Soraya Azán, analista da Corporação Andina de Fomento (CAF), de Caracas:
"Outros setores absorvem os recursos, de forma que o transporte público acaba não sendo prioridade dos governantes. É preciso abrir caminho, por meio da comunicação com o mundo político e acadêmico, para mostrar o real problema do transporte. Além disso, o veículo privado é beneficiado com políticas públicas, incentivando a população a utilizá-los."
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