Transporte sustentável
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Texto por Rejane D. Fernandes
Pela primeira vez mais da metade da população mundial está concentrada nas zonas urbanas. A estimativa da Organização das Nações Unidas é de que nas próximas décadas o crescimento populacional do planeta se dará nas cidades, nas quais viverão sete em cada dez pessoas em 2050. Sustentabilidade ambiental e qualidade de vida vão depender cada vez mais de como as áreas urbanas são planejadas, construídas, desenvolvidas e gerenciadas e é preciso fazer agora a escolha entre um crescimento desordenado ou um espaço público formatado de forma planejada e capaz de absorver o novo contingente.

As primeiras cidades surgiram há 5.500 anos, na Mesopotâmia e no Vale do rio Nilo, no Egito. Local de proteção, armazenagem de alimentos e comércio, as cidades permitiram ao homem ir além da luta pela sobrevivência. Hoje há 19 cidades com mais de 10 milhões de habitantes e em 20 anos serão 27, das quais 22 estarão localizadas nos países em desenvolvimento. Alta densidade populacional reduz custos de produção e compõe um enorme mercado consumidor de bom poder aquisitivo. Mas, o crescimento populacional desordenado destrói este mesmo desenvolvimento, pois à medida que cresce, a cidade vai se tornando incapaz de atender a demanda pelos serviços básicos. Aos poucos, o caos se instala e a segurança, saúde, educação e transporte tornam-se cada vez mais precários. Então, a cidade deixa de atrair investimentos.

A classe criativa aprecia viver em cidades sustentáveis e é o capital humano que faz a economia crescer.
Richard Florida, professor da Universidade George Manson (US)

“O gerenciamento ambiental impulsiona a arrecadação da cidade e é uma poderosa ferramenta de marketing para atrair investidores, contribuir para saúde pública e para a erradicação da pobreza.”
Achim Steiner, Diretor Executivo do Programa Ambiental das Nações Unidas.

“As cidades hoje... operam em um mercado global, competem por investimento com outras cidades e conglomerados urbanos de todo o mundo”.
William Cobbet é o diretor da “Cities Alliance” (Aliança das Cidades).

“Não devemos desprezar o automóvel, mas saber usá-lo de forma adequada”.
Jorge Willeim, arquiteto e urbanista.

Neste século, as cidades competem numa economia cada vez mais global. Competem por investimentos e competem pelo que o professor Richard Florida, da Universidade George Manson em Virginia, chama de “classe criativa”. O núcleo dessa classe é formado por profissionais criativos em uma variada gama de atividades de conhecimento específico. A classe criativa quer viver em cidades que estão em harmonia com o meio ambiente, que tenham bons sistemas de transporte coletivo, que sejam visualmente interessantes e convidem a uma caminhada entre casas, escolas, bibliotecas, cinemas e restaurantes. Querem espaços públicos desenvolvidos e gerenciados para pedestres, onde seja possível interagir socialmente, com muitos parques e espaços para que trajetos curtos, de um quilômetro e meio, por exemplo, possam ser percorridos agradavelmente a pé.

Em termos mensuráveis e práticos, áreas urbanas precisarão ser projetadas, re-projetadas e desenvolvidas para utilizar seus recursos de maneira muito mais eficiente. As cidades também terão que reduzir os gastos, cortar a poluição e diminuir suas pegadas ecológicas. O transporte sustentável se impõe prioritário nesse processo, é a chave para esse quebra-cabeça.

Cidades de classe mundial como Nova Iorque, Paris e Londres já perceberam essa verdade. Cingapura, Seul, Oslo, São Francisco, Vancouver, Portland, Curitiba, Bogotá e uma série de outras importantes cidades no mundo inteiro também já sabem disso, mas, infelizmente, a maioria das cidades do planeta ainda precisa responder ao grande desafio de criar um futuro sustentável, de engajar os cidadãos em torno desta visão e adotar políticas consistentes para chegar lá.

Cingapura foi a primeira a cobrar pedágio dos veículos que trafegam em sua área central. Londres, Oslo, Roma e Milão copiaram a medida. A prefeitura de Nova Iorque tentou seguir o exemplo, mas o projeto foi rejeitado pela assembléia estadual. Cingapura foi a primeira cidade a instituir o pedágio urbano, ainda em 1975, e o mantém até hoje, aliado a investimentos em transporte coletivo e monitoramento de tráfego. Londres trabalha duro para reduzir o trânsito e a poluição usando uma combinação de pedágio urbano e restrição do tráfego em certas ruas do centro da cidade.

Paris apostou nas bicicletas e no transporte coletivo para retirar os automóveis das zonas centrais. A Prefeitura distribuiu 20 mil bicicletas por 750 pontos de embarque e o transporte coletivo passou a ter exclusividade em algumas faixas antes liberadas aos automóveis. Nova Iorque não conseguiu a aprovação do legislativo para o pedágio urbano, mas planeja mais espaço para pedestres e bicicletas e a expansão de corredores exclusivos com ônibus de alta capacidade, os BRT (Bus Rapid Transit).

Seul espantou o mundo ao derrubar seis quilômetros de uma moderna elevada sobre o rio Cheonggyecheon, no centro da cidade, para construir um parque em torno do rio, com passeios e praças públicas, entregue à cidade em 2005. A iniciativa do prefeito Lee Myung-bak incluiu a construção de um sistema de faixas exclusivas para ônibus ao longo de 54 km de vias congestionadas. A remodelação obteve a redução do uso dos automóveis em 50% e deu ao prefeito a plataforma de que ele precisava para tornar-se presidente da Coréia do Sul.

Com o BRT, Bogotá, na Colômbia, restringiu o trânsito de automóveis durante horários de pico para reduzir o congestionamento nessas horas em 40 por cento. Há alguns anos, a Câmara de Vereadores aumentou os impostos sobre a gasolina e investiu metade da receita em um sistema de ônibus BRT que diariamente atende 500.000 moradores de Bogotá. Há também 300 quilômetros de ciclovias e um domingo anual sem carro na região central. Guayaquil, no Equador, ganhou o prêmio internacional de sustentabilidade no ano passado, depois de inaugurar um novo sistema de transporte coletivo, renovando espaços públicos e áreas para pedestres e lançando o Domingo Livre de Carros (Car-Free Sunday) nas ruas do centro.

O futuro aponta para um novo perfil de cidade, com bons sistemas de transporte coletivo, harmonia com o meio ambiente, ciclovias e espaços para caminhar, regiões densamente povoadas e com uso misto do solo. Smart Growth, New Urbanism ou Transit Oriented Development, o conceito desenvolvido no hemisfério norte pressupõe bairros ou microrregiões estruturadas para oferecer tudo ao cidadão, sem que ele precise percorrer grandes distâncias diárias. O transporte coletivo passa a orientar o crescimento da cidade, os automóveis deixam de entupir as vias e só saem das garagens para o lazer.

Esse é o futuro perseguido por Londres, Paris, Nova Iorque. Essa é a cidade desejada pela classe criativa. Quem independe de um carro para alcançar seu destino diário livra-se do stress do tráfego e pode desfrutar mais tempo com os amigos e a família, em vez de ver as horas serem consumidas no trânsito. Quando o transporte coletivo está disponível e há espaços seguros para os pedestres e ciclistas, as pessoas se tornam mais ativas e saudáveis, e o tecido sócio-econômico das cidades é fortalecido.

Infográfico: Rede EMBARQ